American Express no Brasil: a Amex perdeu relevância?

8 min de leitura

A American Express perdeu relevância no Brasil? Na minha leitura, sim, mas a resposta precisa de uma ressalva. A Amex não deixou de oferecer bons benefícios. O que aconteceu foi mais incômodo para uma marca premium: o mercado avançou mais rápido, o consumidor passou a fazer contas e o prestígio deixou de fechar a venda sozinho.

Uma análise publicada pela coluna Pé de Milha, no iG, colocou esse assunto de forma direta. A tese é que a bandeira que ajudou a definir o cartão de alta renda no país ocupa hoje um papel secundário. Eu concordo com boa parte do diagnóstico, mas acho importante separar três coisas: a força da marca, a qualidade real do The Platinum Card e a relação entre custo e benefício para cada cliente.

Por que a American Express no Brasil perdeu espaço

O ponto central não está apenas na quantidade de pontos ou de salas VIP. A operação brasileira mudou de natureza quando a American Express deixou de emitir diretamente seus cartões no país e passou a depender de bancos parceiros.

Nos mercados em que controla emissão, relacionamento com o cliente e rede de benefícios, a Amex consegue ajustar o produto como um pacote completo. No Brasil, a bandeira divide espaço dentro do portfólio de bancos que também vendem Visa e Mastercard. Esses bancos precisam decidir qual cartão oferecer, para qual cliente e em quais condições.

Na prática, isso reduz o controle da American Express sobre preço, concessão, comunicação e posicionamento. O nome continua forte, mas a experiência depende muito mais do emissor. A reportagem que motivou esta análise também lembra que o Santander suspendeu novas emissões da bandeira em maio de 2026, deixando o Bradesco novamente no centro da oferta.

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O The Platinum Card ainda tem benefícios relevantes

Seria injusto dizer que o The Platinum Card virou um cartão sem valor. Na consulta feita à página oficial da American Express, o produto emitido pelo Bradesco informava 2,2 pontos por dólar em compras nacionais e 3 pontos por dólar em compras internacionais. Os pontos não expiram.

A página também relacionava acesso ilimitado às salas Centurion no exterior, aos lounges próprios e parceiros do Bradesco e a espaços W Premium elegíveis no Brasil. Concierge, seguros, benefícios em hotéis e ofertas completam o pacote.

Cartões premium genéricos sobre mesa com passaporte e celular para comparação de benefícios
O consumidor de alta renda passou a comparar cada benefício antes de concentrar gastos em um cartão.

Então qual é o problema? Benefício bom não é sinônimo de proposta competitiva. Um cartão pode entregar conforto e ainda assim perder a comparação quando o cliente coloca na mesma planilha a anuidade negociada, a pontuação, a rede de lounges, os parceiros de transferência e as alternativas do próprio banco.

É por isso que eu prefiro não julgar um cartão apenas pela taxa de pontos. Como explico no artigo sobre como escolher um cartão para acumular milhas, o melhor produto é o que devolve mais valor dentro do seu padrão de gastos e viagens.

O mercado premium brasileiro mudou de régua

Durante muito tempo, carregar um cartão reconhecido já comunicava exclusividade. Hoje, o consumidor de alta renda tem mais informação e muito mais opções. Ele quer saber quanto paga, quanto recebe de volta e em quanto tempo recupera o custo.

  • Quantos pontos o cartão entrega em compras no Brasil e no exterior?
  • Os pontos expiram e para quais programas podem ser transferidos?
  • O acesso à sala VIP é realmente ilimitado ou depende de gastos?
  • Há convidados gratuitos? Quais aeroportos entram na rede?
  • A anuidade pode ser reduzida ou zerada de forma previsível?
  • Existem conta global, câmbio melhor ou seguro útil para a viagem?
  • A bandeira tem boa aceitação nos lugares em que o cliente costuma gastar?

Visa e Mastercard também ampliaram seus segmentos de altíssima renda. Produtos como World Legend e Visa Infinite Private elevaram a disputa por clientes que antes poderiam escolher a Amex quase por inércia. O BTG Ultrablue World Legend e o novo posicionamento do Visa Infinite Private mostram como essa competição ficou mais sofisticada.

A sala VIP fechou, mas o benefício não desapareceu

O fechamento da sala exclusiva da American Express em Guarulhos, no começo de 2025, teve um peso simbólico. Era um ativo físico que materializava a marca no principal aeroporto internacional do país. Para muita gente, a porta da sala era uma parte visível da promessa de exclusividade.

Mas é preciso atualizar a fotografia. Em agosto de 2026, a página oficial do The Platinum Card indicava acesso a espaços W Premium no Terminal 3 de Guarulhos, além de salas Bradesco e Centurion elegíveis. Ou seja, não houve um apagão de lounges. Houve uma mudança de uma presença própria e muito identificável para uma rede baseada em parceiros.

Viajante diante de uma sala VIP em aeroporto avaliando o benefício do cartão
Sala VIP só gera valor quando a rede, as regras de acesso e o perfil de viagem combinam.

Para o viajante, o que vale é o acesso que funciona no dia da viagem. Para a marca, porém, perder um espaço próprio reduz diferenciação. Uma sala parceira pode ser confortável, mas também pode atender clientes de várias bandeiras e emissores. Isso enfraquece a sensação de que o cartão abre uma porta que os concorrentes não abrem.

Esse ponto fica ainda mais claro quando existem cartões com sala VIP e possibilidade de anuidade grátis. Se o benefício principal pode ser obtido por menos, a marca premium precisa entregar algo adicional e perceptível.

Para quem a Amex ainda pode valer a pena

Eu não descartaria o The Platinum Card só porque ele perdeu protagonismo. Existem situações em que a conta ainda pode fechar:

  • Você consegue uma boa negociação de anuidade. O custo real muda completamente a análise.
  • Você usa a rede Centurion no exterior. Esse é um benefício difícil de substituir para determinados roteiros.
  • Você concentra compras internacionais. A pontuação divulgada para gastos fora do Brasil é superior à pontuação nacional.
  • Você aproveita hotéis e serviços. Concierge e programas hoteleiros podem ter valor para quem realmente usa, mas não devem entrar na conta como benefício automático.
  • Você já tem outro cartão como reserva. Em uma viagem, eu não dependeria de uma única bandeira, principalmente fora dos grandes centros.

O erro é aceitar uma anuidade alta apenas pelo nome impresso no cartão. Antes de contratar ou renovar, peça ao emissor as condições atuais, confirme convidados e limites de acesso e simule quanto você gera em pontos durante um ano. Regras de cartão mudam, e uma página promocional nunca substitui a leitura do regulamento.

O Centurion não resolve a discussão para a maioria

O The Centurion Card continua ocupando outro patamar. É um produto restrito, por convite e destinado a um público muito pequeno. Ele pode preservar a imagem da American Express no topo da pirâmide, mas não responde à pergunta de quem procura um cartão premium acessível dentro da alta renda.

Uma bandeira pode manter um excelente produto de altíssimo luxo e, ao mesmo tempo, perder relevância no segmento logo abaixo. É justamente nesse espaço mais amplo que a Amex parece ter cedido terreno no Brasil.

Minha conclusão: a Amex não ficou ruim, ficou menos única

A real é que a American Express ainda tem ativos valiosos. A marca é conhecida, o The Platinum Card oferece pontos que não expiram, há uma rede relevante de lounges e alguns benefícios de viagem podem ser muito bons.

Mesmo assim, ela perdeu o lugar automático de referência. O consumidor brasileiro aprendeu a comparar cartões, os concorrentes ampliaram a oferta e os bancos passaram a disputar o mesmo cliente com produtos próprios de Visa e Mastercard. Nesse cenário, prestígio sem vantagem clara vira lembrança, não preferência.

Minha recomendação é simples: não escolha nem rejeite a Amex pela fama. Coloque o custo real ao lado dos benefícios que você usa. Se a conta fechar, o cartão pode continuar fazendo sentido. Se o argumento principal for apenas status, provavelmente existe uma alternativa mais interessante para a sua viagem.

Fontes consultadas

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